O que ainda há para dizermos sobre a série Adolescência?
Eu sei que você leu o título, mas eu gostaria de reforçar: o que ainda há a dizer sobre a série Adolescência?
Uma série que começa com a polícia invadindo a casa da família Miller para prender o filho mais novo, Jamie (Owen Cooper), enquanto seus pais (Stephen Graham e Christine Tremarco) e irmã (Amelie Pease) assistem horrorizados, perplexos, chorando e implorando para que não o levem, que eles estão na casa errada, que ele é um garoto inocente.
E os roteiristas tentam te convencer que, independentemente do que Jamie está sendo acusado, ele é, com toda certeza, inocente.
A acusação? O assassinato de sua colega de classe Katie Leonard (Emilia Holliday), que foi encontrada com 7 ferimentos de faca em um estacionamento.
Ep 1. Quem matou Katie Leonard?
Muito diferente do que a maioria das séries investigativas da plataforma de streaming Netflix, a série Adolescence não carrega a resposta para essa pergunta até o penúltimo episódio. Muito pelo contrário, nos últimos cinco minutos um vídeo é apresentado a nós, mostrando como foi o ataque e a linha do tempo do ocorrido.
Não há mistérios, o telespectador sabe quem matou Katie, a polícia sabe quem matou Katie, no entanto, o assassino continua negando e dizendo que ele não fez, que não podemos confiar em vídeos hoje em dia.

O primeiro episódio é convincente o suficiente para te fazer acreditar que, talvez, só por um momento, os policiais realmente pegaram o garoto errado. Talvez ele tenha emprestado o sapato dele para alguém, talvez seja alguém parecido com ele. Talvez… talvez… talvez.
São tantos talvez, tantas perguntas, tantas respostas que você irá torcer para conseguir o mais rápido possível em uma tentativa de entender como um adolescente de aparência indefeza, inseguro, franzino, teria sido capaz de cometer tal crime.
E é por isso que a confirmação do culpado aqui tem um peso ainda maior.
Do ponto de vista do telespectador, quando um show revela uma informação que é comumente usada como o plot-twist de um final de temporada já no primeiro episódio, é díficil imaginar qual será o próximo passo.
Afinal, se a informação nos é entregue de bandeja, sem nem deixar que a gente monte o quebra-cabeça pedaço por pedaço, o que mais a gente deve esperar de um show? E é isso que o segundo episódio da série Adolescência traz introdupara o público.

Ep 2. A manosfera e seus impactos
No segundo episódio, nós acompanhamos os policiais Bascombe (Ashley Walters) e Misha Frank (Faye Marsay) na escola de Jamie em uma tentativa de encontrar a arma do crime e entender as motivações por trás do crime.
É neste episódio que nós temos um aprofundamento maior no tema principal desse show: a comunidade red pill.
Durante a busca, Adam (Amari Bacchus), filho do policial Bascombe pede para conversar com o pai e nós somos introduzidos ao conceito de “manosfera”, seus códigos e crenças junto com o policial.

É dessa forma que nós aprendemos pela primeira vez, contrário do que os policiais acreditavam, Katie não estava sendo amigável e flertando com ele. Ela estava cometendo bullying com Jamie em suas fotos do Instagram, dizendo que ele seria para sempre um incel (involuntarily celibate, diretamente traduzido para celibatário involuntário).
Bascombe brinca com o filho de que Red Pill é coisa do filme Matrix, o que faz com que o filho dele explique que as pessoas que se juntam a essa “cultura” fielmente acreditam que eles veem a verdade, além de acreditarem que há uma regra conhecida como 80 – 20%, onde 80% das mulheres são atraídas por somente 20% dos homens.
Quando Bascombe compartilha as informações com sua parceira no caso, ela imediatamente cita Andrew Tate, um dos maiores e mais controversos influencers Red Pill da internet.

De acordo com o Museu Canadense dos Direitos Humanos, Tate surgiu na internet durante a pandemia de Covid-19 e se tornou um dos principais rostos do nicho de “hustle bros”, uma comunidade de influenciadores que “combinam conselhos misóginos sobre relacionamentos com esquemas para enriquecimento rápido”.
Mesmo tendo sido expulso de plataformas como Youtube, Tiktok e outras redes sociais por defender a violência contra as mulheres, seus conteúdos acumulam bilhões de visualizações.
O Museu Canadense dos Direitos Humanos adiciona ainda que “Tate executa e vende um modelo de masculinidade hiper-machista e que, sua versão da supremacia masculina enfatiza a violência, a riqueza e a competitividade”.
Em 2022, Tate foi preso pela polícia romena por tráfico de pessoas, agressão sexual e exploração de mulheres para produção de pornografia. Apesar de tudo isso, Tate ainda é uma figura muito presente na internet, contando com 10 milhões de seguidores no X.
E assim o show começa a tecer suas críticas sobre o impacto da manosfera nos homens, principalmente nos adolescentes que em seu maior momento de vulnerabilidade, procuram por exemplos a seguir em uma tentativa de mudar sua própria imagem e caem em comunidades tóxicas com pensamentos que não trazem benefício algum.
Ao fim desse episódio, nós vemos o policial Bascombe buscando se reaproximar de seu filho. É interessante ver como, sobre uma nova perspectiva, o policial passa a desejar ser um homem e pai mais presente na vida do seu filho que, assim como Jamie, também sofre bullying.
Nós também vemos o pai de Jamie colocando flores em um memorial para Katie ao som da música “Fragile” do cantor Sting, na voz da atriz Emilia Holliday, encarando pela primeira vez a realidade do que seu filho fez.

Ep 3. Jamie, sua relação com as mulheres e a manosfera
Apesar do foco no primeiro episódio ter sido no Jamie, no segundo episódio nós ouvimos muito sobre ele, mas não o vemos. Não sabemos onde ele está, o que aconteceu, não sabemos nada.
Já no terceiro episódio, Jamie volta a cena, agora 7 meses após o assassinato de sua colega de classe. Nós vemos uma psicóloga entrando no local onde Jamie está, essa é sua quinta sessão. Rapidamente, nós aprendemos que Jamie se envolveu em um episódio violento com outro garoto e que nenhum dos dois assume a culpa.
Briony Ariston (Erin Doherty), quer se manter profissional e evita saber o que outros psicólogos pensam sobre Jamie, ela quer ter sua própria opinião.
Boa parte desse episódio acontece em uma sala fechada, focando na dinâmica entre dois personagens e é aqui que, finalmente, a persona inocente de Jamie quebra e nós vemos o quanto seus pensamentos foram corrompidos por opiniões tóxicas.

Na minha opinião, nós temos os maiores e mais importantes diálogos aqui. É possível ver como Jamie, ao mesmo tempo que não tem respeito e carrega um ódio por mulheres, ele precisa da opinião delas para se sentir validado.
Por muitas vezes ele tenta convencer a Briony a mostrar para ele suas anotações sobre ele, mas quando ela tenta perguntar sobre outros homens na sua vida, ele se retrai, evita o assunto. Quando ela pergunta como o pai e o avô dele são, ele responde “homem”.
Quando Briony questiona algumas coisas que ele diz, imediatamente a sua reação é caçoar dela, tratando-a com desdém. O descontentamento de Jamie ao descobrir que a opinião de sua psicóloga será importante durante sua sentença é evidente. Os braços cruzados, o bocejo, fingir que está distraído, tudo é parte de uma brincadeira para ele.
Jamie se diverte ao saber que está “afetando” Briony de alguma forma, rindo quando ela pergunta se está entediando ele.

As coisas logo vão água abaixo quando Jamie começa a resistir as perguntas e começa a fazer perguntas das quais Briony não possui as respostas. Ele quer sair do local onde está sendo detido, quer saber onde vai ser julgado, quer mais informações. Ela, por outro lado, não possui nenhuma informação sobre isso, o que o leva a perder a faceta calma e gritar com ela, falando que ele não irá sentar porque ela pediu, que ela não manda nele.
Jamie grita com sua psicóloga, a xinga, mas imediatamente se desculpa quando um policial entra na sala. Essa dinâmica acontece ao longo de quase todo o episódio, mostrando o pouco respeito que ele tem com a mulher que pode ajudá-lo a ter uma sentença mais branda.
Quando a psicóloga questiona Jamie sobre relações sexuais com outras garotas, ele diz a ela que duas garotas já mostraram suas partes íntimas a ele e tocaram as deles. Não demora muito para que ele diga que é mentira e que as meninas que ele viu o topless, na verdade, tiveram nudes vazados por um outro colega de classe.
Jamie tem opiniões firmes e pesadas sobre si mesmo. Quando ele diz que é feio, ele precisa que a psicóloga o contrarie e diga que ele é bonito. Quando ela não faz, ele começa mais um episódio de surto onde ele finalmente admite o que fez.
Dessa vez seu surto fica ainda pior quando a psicóloga apenas sinaliza para o policial que ele não precisa interferir, Jamie refere-se a ela como uma “rainha”, apenas sinalizando para os outros o que eles devem fazer.

É possível ver que Jamie não só sente prazer em conseguir intimidá-la, ele se satisfaz ao questioná-la sobre seu medo, exaltando que um “pirralho de 13 anos” consegue assustá-la.
Aqui nós aprendemos que Jamie convidou Katie para sair após ela ter suas fotos vazadas, para ele, o fato de ela estar “fraca” faria com que ela aceitasse sair com ele. No entanto, Katie recusou dizendo que não estava tão desesperada assim.
Apesar de seguir negando a autoria do crime, Jamie tem, nesse episódio, uma das falas que mais causa incomodo. Ele fala que poderia ter feito o que quisesse com Katie, ela estava assustada, ele tinha uma faca. Em suas palavras, “outros garotos teriam tocado ela. Eu sou melhor que os outros”.
Para ele, esfaquar uma garota sete vezes não é tão grave, pois ele teve a misericórdia de não estuprá-la. Esse momento é crucial para entendermos o impacto de tudo que Jamie aprendeu na internet, todos os discursos de ódio, todo o ódio por mulheres, com tão pouca idade.
Quando Briony avisa Jamie que aquela é sua última sessão, mais uma vez ele tem um descontrole emocional forte, pedindo e implorando para que ela diga a ele se ela gostou dele, porque ele gostou dela, não para namorar, mas como pessoa.
Mais uma vez deixando claro como, apesar do seu ódio por mulheres, ele ainda precisa de sua opinião para se sentir valorizado e validado. Deixando-o ainda pior quando Briony diz a ele que ela o via apenas de forma profissional e não como ele gostaria.
É importante ressaltar que a atuação de ambos os atores nesse episódio é admirável, Waters e Doherty conseguem ir da sutileza ao extremismo em segundos, trazendo profundidade para seus personagens sem a necessidade de falar, apenas com olhares e movimentos calculados.

Ep 4. O que acontece com quem ficou para trás?
Quando alguém comete um crime, seja ele grave ou dos mais “leves”, a gente sempre pensa na vítima e na família da vítima, poucas vezes somos incentivados a pensar na família dos criminosos.
A série Adolescência, por outro lado, mantém Katie e a família dela fora de cena, o foco aqui são Jamie, seus pais, sua irmã e como eles estão lidando com a situação.

O grande season finale aqui, na verdade não encerra nenhuma história. Neste episódio nós acompanhamos Eddie, Manda e Lisa Miller estão tentando ter um dia normal e comemorar o aniversário de Eddie.
Nos primeiros cinco minutos de cena, nós aprendemos que a van de trabalho de Eddie foi pichada com a palavra “nonce”, utilizada em referência a alguém que cometeu um crime sexual, geralmente contra crianças.
O pai, que até então está vivendo de forma normal, tentando apenas aceitar tudo que aconteceu, acaba entrando em um espiral de culpa.
Eddie e Manda estão tendo problemas no próprio relacionamento, Manda teme que eles não conseguirão passar por isso. Este episódio nos ensina que a violência de Jamie não pode ser justificada pela forma como seus pais o criaram.
Nós aprendemos que o avô de Jamie era violento com seu pai e que ele prometeu jamais fazer o mesmo com seus filhos para escapar desse ciclo de violência e agora Eddie sente que ele devia ter agido diferente em algum momento.

Do outro lado, Manda sente que ela poderia ter feito algo se tivesse mandado filho sair da internet quando via ele online de madrugada. Para ela, é um problema o fato de que, ela não estava na sala, ela não viu o vídeo, o filho a excluiu escolhendo o pai como um adulto responsável, então agora ela precisa se basear no que escuta, sem saber realmente como tudo aconteceu.
Eddie narra como levou Jamie para o futebol, em uma tentativa de transformá-lo em durão, situação essa que Jamie já havia relatado para a psicóloga. Pela primeira vez, nós vemos o porquê do pai ignorá-lo quando ele falhava.
O casal conversa sobre como sempre pensaram que os filhos estavam seguros por estarem no quarto ao lado, dentro de casa e caminham juntos em uma estrada de lembranças sobre o filho, focando no amor, na felicidade e não nos atos do Jamie atual.
Preparados para enfrentar o que for e para cuidar de sua filha mais velha, ambos escutam Lily dizer que todo mundo causa problemas a ela por ela ser irmã do Jamie, mas que ela não quer ir embora da cidade.
Antes dos segundos finais, ainda há um breve momento onde Eddie se pergunta como eles fizeram uma filha tão doce e gentil, recebendo como resposta um “do mesmo jeito que fizemos ele”.
E então ele caminha para o quarto do filho, observando que as coisas ainda estavam no lugar em que ele deixou. Em uma cena emocionante, Eddie chora e senta na cama do filho, colocando um ursinho de pelúcia debaixo das cobertas e se pedindo desculpas ao seu filho, pois ele devia ter sido um pai melhor.

E assim acaba a série Adolescência.
Minha opinião sobre a série Adolescência
Assistir essa série foi uma montanha-russa de emoções ruins. Apesar de ter dado play esperando por apenas mais um show comum dentre outros milhares que seguem a mesma receita de bolo do início ao fim, eu fui surpreendida com um show que não só queria, como conseguiu fazer algo diferente.
Stephen Graham e Jack Thorne conseguiram criar um roteiro que nos traz informação e reflexão. Adolescência não é uma história baseada em fatos, mas poderia ser. Segundo matéria publicada no The Guardian, a ideia inicial para o show veio para Stephen Graham, “após uma onda de crimes violentos angustiantes”.
Em entrevista, Graham declarou que gostaria de entender o que estava acontecendo com a sociedade e assim nasceu a série Adolescência.
De acordo com The Guardian, “na última década, o número de adolescentes do Reino Unido mortos com uma lâmina ou objeto cortante aumentou em 240%. Em um nível cultural, é sobre cyberbullying, a influência maligna das mídias sociais e as pressões insondáveis enfrentadas pelos meninos na Grã-Bretanha hoje. Raiva masculina, masculinidade tóxica, misoginia online”, eles completam dizendo que isso não é apenas ficção muito plausível, mas sim um fato inevitável.
Em um nível mais superficial de aprofundamento, é possível identificar a diferença de tratamento e criação de pais com filhos homens e filhas mulheres. Eu consigo identificar momentos em minha vida onde algo que estava sendo ensinado vinha com o peso de me “transformar em uma mulher boa”. Conversas e mais conversas sobre o certo e o errado, sobre o que é ser mulher.
Agora, você consegue lembrar um momento em que ouviu homens tendo esse mesmo tipo de conversa com seus filhos? O conceito de o que é ser homem e o que é ser mulher não é igualmente debatido, mais um exemplo da desigualdade de gênero que assombra nossa sociedade e está longe de ser resolvida.
Adolescência é uma mensagem direta e clara aos pais que assistem: preste atenção nos seus filhos. Pequenos sinais podem indicar muito mais do que nós imaginamos. Ao longo do primeiro episódio nós escutamos de professores que Jamie sempre foi um menino muito inteligente, mas seu comportamento estava mudando bastante nos últimos meses.
Se os pais e responsáveis não conversam com seus filhos sobre a melhor forma de agir, outra pessoa irá passar esses ensinamentos. Em um mundo onde a internet tem um papel tão importante na nossa vida, é essencial entender onde atitudes precisam ser tomadas e a força humana deve intervir.
Não deixar que estranhos na internet se infiltrem nos cérebros em formação dos nossos adolescentes é essencial para construir um futuro melhor.
No geral, a série Adolescência é uma obra de horror que nutre-se da força não tão anônima dos criadores de conteúdos Red Pill e os efeitos que ainda virão. E para te assustar, a direção não precisou de nenhum susto inesperado, nenhuma maquiagem mirabolante, pelo contrário, cada episódio foi filmado em um plano-sequência, sem cortes, sem mudanças de ritmo, facilitando seu foco na história.
A série Adolescência está disponível na Netflix e com certeza é uma obra que merece a sua atenção.
Veja o trailer: